Quando o remédio vira veneno - Matéria - Jornal Cidadania - Fundação Bunge
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Jornal Cidadania • Edição 60 • Ano 8 - Maio/Junho 2011

Quando o remédio vira veneno

Projeto de descarte consciente alerta para os perigos de jogar remédios e embalagens vazias no lixo comum


Publicado em 05/05/11 às 18h00 envie a um amigoenvie para um amigo

Antitérmico, analgésico, ansiolítico, antibiótico. É geralmente quando acabam os nossos males de saúde que começa um grave problema ambiental. Tratado quase sempre como transtorno corriqueiro, o descarte de medicamentos vencidos, seringas usadas e embalagens vazias de remédios no lixo comum, na privada ou ralo abaixo representa sérios riscos de contaminação do solo, dos rios e, consequentemente, até da rede de abastecimento que leva água aos domicílios.

“Existem estudos americanos que associam casos de mutações genéticas ao excesso de resíduos medicamentosos na água saneada. Isso porque algumas das substâncias presentes nos medicamentos não são eliminadas pelo cloro”, diz o professor do mestrado em Tecnologia Ambiental da Associação Instituto de Tecnologia de Pernambuco Bertrand Sampaio, que se dedica a estudar os impactos do lixo no meio ambiente desde 1984.

O problema, diz o engenheiro químico Alexandre Menelau, é que todo medicamento interfere no equilíbrio dos microrganismos da rede de água. O resultado? “É difícil mensurar os danos a longo prazo. Mas um dos possíveis desdobramentos disso que já estamos enfrentando são as superbactérias”, diz Menelau, diretor da unidade recifense da Stericycle, multinacional fundada em 1989 em Illinois, Estados Unidos, especializada na coleta e no descarte de lixo médico.

Para combater esse problema, uma iniciativa pioneira no Brasil começou a ser testada em São Paulo. O Grupo Pão de Açúcar e o laboratório Eurofarma estão disponibilizando coletores de embalagens e medicamentos vencidos em algumas drogarias da rede varejista. “Ainda não existe a cultura de descarte consciente de medicamentos no Brasil. Muitas pessoas não sabem dos perigos que envolvem a destinação inadequada desses resíduos. Mas o consumidor brasileiro é receptivo e quer exercer sua responsabilidade”, diz a diretora de Sustentabilidade e Novos Negócios da Eurofarma, Maria Muñoz.

O projeto, batizado de Descarte Correto de Medicamentos, iniciou em novembro de 2010 com cinco pontos de coleta, nas drogarias dos supermercados Extra do Itaim Bibi, Penha e João Dias e das unidades Real Parque e Jabaquara da rede Pão de Açúcar. A expectativa é instalar urnas coletoras em mais 40 lojas de São Paulo em breve. Segundo a assessoria da Eurofarma, há interesse em replicar o projeto em outras cidades brasileiras, mas ainda não há previsão para isso.

Os números reforçam a importância da iniciativa. De acordo com a assessoria do projeto, nada menos que 170 milhões de unidades de produtos farmacêuticos são colocadas nas ruas do País todos os meses. E, já nos primeiros dois meses, 350 quilos de resíduos considerados perigosos haviam sido arrecadados.

Mas nem toda embalagem exige um descarte mais cuidadoso. Além dos perfurocortantes, só podem causar danos ao meio ambiente e à população blisters, frascos e bisnagas – embalagens primárias, ou seja, aquelas que têm contato direto com o fármaco. Caixas de papel e bulas são inofensivas. Podem – e devem – ser desprezadas no lixo comum. De preferência, nos coletores de papel e papelão para reciclagem.

© Osi Nascimento]

Cuidados na hora de fazer uma faxina na farmácia de casa

•    Nenhum medicamento deve ser descartado no lixo comum, nem as embalagens que têm contato direto com os fármacos, como blisters, frascos, bisnagas e perfurocortantes (agulhas e ampolas).

•    Jamais despeje comprimidos e remédios líquidos, vencidos ou não, na pia ou na privada.

•    Caixas de papel e bulas podem ser descartadas nos coletores seletivos de papel tradicionais.

•    Para reduzir o risco de acidentes, coloque os materiais cortantes dentro de embalagens rígidas, como latas de achocolatado ou leite em pó.

•    Armazene o material em sacolas plásticas e, ao juntar quantidade razoável, dirija-se aos postos de coleta.

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