A Amazônia tem o direito de existir - Matéria - Jornal Cidadania - Fundação Bunge
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Jornal Cidadania

Jornal Cidadania • Edição 60 • Ano 8 - Maio/Junho 2011

A Amazônia tem o direito de existir

Leia entrevista com João Meirelles Filho, autor do livro Grandes Expedições à Amazônia Brasileira: 1500—1930 (Metalivros: 2009), obra discutida na edição impressa do Cidadania 60. Entrevista concedida por email a Alexandre Bandeira


Publicado em 05/05/11 às 18h00 envie a um amigoenvie para um amigo

Apesar de dedicado às populações nativas da Amazônia e de fazer menção às colaborações de remeiros, trilheiros, intérpretes, cozinheiros aos viajantes, seu livro não dá voz a estas pessoas. Seria possível coletar dados sobre essas expedições do ponto de vista dos “anfitriões amazônicos”?
Sim, a voz dos coadjuvantes raramente aparece. Eles sequer participam de ilustrações, raramente são mencionados; agradecimentos, então, são verdadeiras exceções! Este “egoísmo” que perpassa os viajantes, e que dificilmente resulta em reconhecer o papel do outro, segue século XX e XXI adiante. É da natureza da própria viagem. Gostaria que assim não fosse. Somente aqueles que nada procuram (a não ser se encontrarem) e esperam aprender com os outros poderão superar a barreira de medir, calcular, comparar.

A maior parte das expedições apresentadas no livro resulta num paradoxo: apesar de terem trazido contribuições decisivas para diversas ciências, também foram nocivas em vários aspectos para os nativos e para a natureza amazônica. Esse paradoxo permanece hoje? O desenvolvimento científico, econômico e político da Amazônia é compatível com a conservação da biossociodiversidade da região?
Hoje, as questões são mais extremadas, a circulação de informações nos assusta, e nos resguarda, as viagens podem ser vivenciadas ao vivo, o GPS impossibilita o anonimato. A Amazônia ficou isolada do mundo por cinco séculos euroamericanos – e nestes se cometeram atrocidades e injustiças enormes – pela impossibilidade de se divulgar o que ali se passava; o simples não compartilhar garante a impunidade. Eu diria que a Amazônia do século XXI é a Amazônia Latinoamericana e não mais a Amazônia Euroamericana! A impunidade persiste, mas esta é revelada, e escondê-la tornou-se mais difícil.

Mas a Amazônia ainda é essencialmente desconhecida da maioria dos brasileiros. Não acha que o restante do País ainda pensa a região como um “outro Brasil”?
Com certeza. Cada brasileiro deve realizar um pacto consigo mesmo que, pelo menos uma vez em sua vida, visitará a Amazônia, a Amazônia profunda, em que se escuta a voz da natureza e, principalmente, a voz de suas populações tradicionais. O “mês amazônico” deveria ser ponto de honra em cada família, contar no currículo para se obter empregos públicos ou privados, matéria obrigatória em cada escola. Que se o pratique entre a adolescência e os estudos de terceiro grau, mas que se leve a sério essa questão! Sobre populações tradicionais, a questão é ainda mais grave, pois os extra-amazônicos vêem seus habitantes como "exóticos". Identidade depende de auto-reconhecimento, e a baixa autoestima está relacionada à perda de identidade – seja pela violência, pela perda do território, pela migração forçada, pela urbanização etc. Se o brasileiro recupera um pouquinho a auto-estima, em função do futebol ou da melhora tênue na economia, a verdadeira identidade está relacionada ao reconhecimento do território como cultura, e não como isolado deste. O desmatamento, a queimada, a sobre-exploração dos recursos naturais estão relacionados à falta de reconhecimento do território como cultura, distanciam-nos da possibilidade de melhoria da auto-estima. O aquecimento global só piora as coisas. Como diz o poeta magno, Thiago de Mello, "floresta sozinha é paisagem, quem dá vida à floresta é o homem".

O que ainda precisa ser descoberto sobra Amazônia? E como faremos isso, com um contingente ínfimo de pesquisadores dedicados à região?
A principal descoberta a se fazer? É o que ensaiou o "Manifesto do Rio Negro" de Frans Krajcberg, Pierre Restany e Sepp Baendereck em 1978, e que precisa ser aprofundado... Reconhecer que a Amazônia, e nós mesmos, o Planeta, este Planeta, não seremos salvos pela racionalidade, e sim pela arte, pela beleza que a arte imana. Se até agora só soubemos cortar a Amazônia e feri-la, e a seu povo, chegou o momento de reconhecer que devemos poupá-la das sanhas desenvolvimentistas pelo simples fato de que ela merece existir enquanto ser. Reconheça-mo-la como ser vivo, pulsante, mais que o fruto da imaginação inventada pelos viajantes; merecemos a Amazônia integral, em sua arte-natureza, como paisagem cultural; ao vivenciá-la, tornamo-nos melhores. Quanto aos pesquisadores, sim, menos de 10% das pesquisas do Brasil para a Amazônia é a o reconhecimento tácito de que a Amazônia nada significa ao brasileiro. Gastamos mais em pizzas do que em reconhecer o que a Amazônia significa em biodiversidade, sociodiversidade, em reconhecê-la como Mãe.
 

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