Ninguém precisa de automóvel para ser feliz - Matéria - Jornal Cidadania - Fundação Bunge
Texto
Jornal Cidadania

Jornal Cidadania • Edição 60 • Ano 8 - Maio/Junho 2011

Ninguém precisa de automóvel para ser feliz

Entrevista com Willian Cruz, cicloativista e editor do site http://vadebike.org, sobre como o uso de bicicletas pode contribuir para o desenvolvimento urbano das grandes cidades brasileiras. Depoimento concedido a Afonso Capelas Jr., por e-mail.


Publicado em 05/05/11 às 18h00 envie a um amigoenvie para um amigo

Entrevista com Willian Cruz, cicloativista e editor do site http://vadebike.org, sobre como o uso de bicicletas pode contribuir para o desenvolvimento urbano das grandes cidades brasileiras. Depoimento concedido a Afonso Capelas Jr., por e-mail.

Como o Sr. se tornou um cicloativista? Como é que alguém decide abrir mão do carro e usar exclusivamente uma bicicleta?

Desde os 18 anos, eu fazia tudo de carro. Como para qualquer jovem de classe média com acesso a um automóvel, a cidade de repente se tornou impossível sem um carro. Dirigia agressivamente, achava que as ruas haviam sido feitas para o carro, que as pessoas deveriam sair das ruas e que ônibus era para quem não tinha opção.
Aos poucos, comecei a perceber que, para alguns trajetos, não compensava usar o carro, pelo custo e pelo tempo, e para algumas coisas comecei a usar o transporte público. Em uma fase em que o dinheiro apertou, fiquei um tempo sem carro para me recuperar (e deu certo), mas assim que pude comprei outro. Ainda achava muito difícil viver sem um automóvel, era algo realmente cultural.
Aos 27 anos, em 2001, comecei a pedalar por esporte e lazer, resgatando um antigo prazer da infância e adolescência. Passei a frequentar grupos de pedaladas noturnas várias vezes por semana, mas aquilo ainda era apenas lazer, eu nem pensava em usar a bicicleta como meio de transporte.
Dois anos depois, num dia em que meu carro quebrou, me toquei que o trabalho era a apenas oito quilômetros de casa e que, quando eu saía para pedalar por esporte, cobria no mínimo quatro vezes essa distância. Resolvi arriscar: coloquei a roupa de trabalho numa mochila, montei na bicicleta e saí na garoa mesmo até a empresa. Só então tive o estalo e percebi como aquilo era muito mais simples do que parecia.

Descobriu que é simples viver sem carro.
Passei a gastar menos, melhorei minha saúde, meu corpo e meu humor. Eu era uma pessoa muito estressada, muito explosiva, e depois que parei de dirigir percebi que o trânsito me deixava assim. Isso tudo me mostrou que não preciso moldar minha vida ao padrão que me foi incutido desde criança pelo meio onde vivi, pela sociedade, pela nossa cultura, pela televisão. Não preciso de um automóvel para ser feliz, mas de amor, amizade e liberdade. E não é me escondendo da vida dentro de um carro de vidros escuros que vou encontrá-los.

Desde que criou o seu site e se tornou um dos cicloativistas mais atuantes no País, qual a maior vitória que o Sr. já conquistou?

Não tenho como falar sobre uma grande vitória. Na verdade, nem sei se já houve alguma que pudesse ser considerada grande. Acho que não. Houve muitos pequenos avanços, que não podem ser atribuídos a mim, pois foram sempre resultado do esforço conjunto de muita gente preocupada com cidades melhores mesclado com mudanças de pensamento inevitáveis e até mesmo com a participação da mídia, principalmente da impressa.

Acredita mesmo que houve uma “mudança de pensamento” entre a população? E nos políticos?
Hoje, muitas pessoas no Executivo e no Legislativo já percebem que o cidadão que usa bicicleta tem demandas, necessidades e relevância, como todos os outros. A imprensa, responsável por formar boa parte da opinião popular, também percebe a bicicleta como uma das maneiras de se deslocar na cidade (um exemplo disso é esta entrevista, improvável dez anos atrás). Muita gente que antes riria sobre a possibilidade de usar a bicicleta, hoje ao menos respeita essa opção, mesmo que não se disponha a adotá-la, o que já é um grande avanço. O que falta, mesmo, é a cidade deixar de ser construída para os automóveis e para o setor imobiliário e passar a ser pensada para as pessoas.

Essa é a questão. Tem confiança nisso?

Alguns anos atrás, eu era bastante pessimista e não acreditava que alguns resultados, notadamente em relação à imprensa e à opinião pública, viriam tão rapidamente. Mas o caminho ainda é longo e há muito a mudar. Acho que meu maior desejo em relação a isso tudo é uma cidade mais humana, onde nossas mulheres, mães, filhas e filhos possam optar por circular a pé ou de bicicleta pela cidade sem ter suas vidas colocadas em risco por um sistema e uma sociedade que desincentivam essa opção e colocam em risco quem a exerce.
Quero uma cidade onde uma criança possa pedalar sozinha até sua escola em um grande centro urbano aos 10 anos de idade, onde crianças pequenas possam ser levadas à escola em um trailer rebocado pela bicicleta de seus pais, onde uma senhora de idade possa pedalar até a quitanda, onde quem anda a pé não se sinta acuado, onde um cadeirante se sinta cidadão. Cidades para pessoas. Ainda chegaremos lá.
 

Ainda nesta edição...

Um perigo que pode nunca acabar

Entrevista com Renato Opice Blum, especialista e pioneiro na área de Direito Digital no País, sobre cyberbullying, assunto tratado na edição impressa do Cidadania 60. Entrevista concedida a Bruna Cabral

A Amazônia tem o direito de existir

Leia entrevista com João Meirelles Filho, autor do livro Grandes Expedições à Amazônia Brasileira: 1500—1930 (Metalivros: 2009), obra discutida na edição impressa do Cidadania 60. Entrevista concedida por email a Alexandre Bandeira

“Cidades são para pessoas, não para carros”

Cicloativista vê crescer o movimento a favor da bicicleta como meio de transporte eficiente, saudável e sustentável

Quando o remédio vira veneno

Projeto de descarte consciente alerta para os perigos de jogar remédios e embalagens vazias no lixo comum

Heróis imperfeitos

Livro resgata as conquistas, virtudes e vícios de bandeirantes, expedicionários e sertanistas na Amazônia brasileira

O direito de copiar

No atual debate sobre a reforma da Lei de Direitos Autorais, os dois lados argumentam em favor de um mesmo objetivo: a cultura brasileira

Cyberbullying

Prática de ameaças, humilhações e ofensas por meio de plataformas tecnológicas, como celulares e computadores. Embora as definições de bullying variem, todas têm em comum a intenção de causar dano e a repetição (incidentes isolados não seriam casos de bullying). O mesmo se aplica ao cyberbullying.

A evolução da previsão do tempo: de Aristóteles a Tupã

Desde o início do ano, Tupã tem ajudado o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) a melhorar a previsão do tempo no Brasil. Esse é o nome do supercomputador que vai gerar previsões com maior antecedência e precisão sobre o clima e suas manifestações no País.



Edições Anteriores

O que é o jornal?

Logotipo do Jornal Cidadania

O Jornal Cidadania é uma publicação da Fundação Bunge, lançada em 2001, que busca disseminar conhecimento e ideias e estimular ações e práticas sustentáveis.

27 edições online

65 edições impressas