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Jornal Cidadania • Edição 62 • Ano 8 - Setembro/Outubro 2011

Parceiros minúsculos

Homenageado do 56o Prêmio Fundação Bunge defende o uso de insetos para o controle de pragas agrícolas


Publicado em 20/09/11 às 16h45 envie a um amigoenvie para um amigo

Não fosse uma excursão de colégio, o Brasil teria perdido um de seus melhores engenheiros agrônomos – e talvez centenas de milhões de dólares em produtividade agrícola. Aos 17 anos, José Roberto Postali Parra foi com a turma do 3o ano científico do Colégio Culto à Ciência, de Campinas, numa visita à Esalq (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, da USP), em Piracicaba. Até então, Parra acreditava que seu gosto pelas Ciências Biológicas o levaria para a Medicina, mas a grandiosidade do campus da Esalq causou uma mudança de rumo. “Eu me apaixonei pela Escola.” E, em vez de estudar o corpo humano, foi estudar insetos. Formado em Engenharia Agronômica, Parra direcionou seus estudos desde cedo para o campo da Entomologia, mais especificamente para as técnicas de controle biológico e manejo integrado de pragas agrícolas, que ele ajudou a difundir no País. Diferentemente do controle químico, feito por meio de pesticidas, o controle biológico emprega inimigos naturais das pragas no manejo da lavoura – insetos que parasitam insetos, por exemplo. Nesta entrevista, Parra – recentemente premiado na 56a edição do Prêmio Fundação Bunge, na área de Defesa Sanitária Animal e Vegetal – fala ao Cidadania sobre o uso do controle biológico como um componente viável para o desenvolvimento da agricultura brasileira.

A agricultura brasileira depende do controle químico de pragas agrícolas, por meio de pesticidas. Por que o Sr. se dedica a estudar a alternativa biológica?

O controle químico é uma realidade, tem de ser utilizado. Mas ele pode ser utilizado conjuntamente com o controle biológico. Por exemplo, as pragas da parte aérea da cana [a porção da planta que fica acima da terra] podem ser controladas biologicamente, sem problemas. Já para as pragas da raiz, ainda não dá. Tem de ser químico. Mas [o controle químico] precisa ser usado de forma racional, com produtos menos agressivos, mais seletivos, que não afetem os inimigos naturais das pragas, que não afetem o homem, o lençol freático, etc. E é possível compatibilizar os controles químico e biológico para minimizar os riscos da aplicação de produtos químicos. Isso é o que chamamos de manejo integrado de pragas, conjunto de medidas que leva em conta critérios econômicos, ecológicos e sociais. E o controle biológico é um  dos principais componentes.

O controle biológico não oferece riscos?
Logicamente são feitos estudos, inclusive sobre impactos ambientais. Por exemplo, será que o inimigo natural de uma praga não parasita também outros insetos benéficos? Tudo isso tem de ser avaliado. Agora, uma preocupação que se tem, principalmente entre os leigos, é que, ao liberarmos insetos em grandes quantidades nas lavouras, eles também se tornem pragas. Isso não ocorre. Eu costumo brincar, dizendo que um leão jamais vai se tornar um herbívoro. O inimigo natural das pragas vai continuar atacando as pragas. Pode ficar tranquilo.

O controle biológico é uma alternativa viável economicamente?
Quando há disponibilidade, sim. Existem culturas sobre as quais ainda faltam estudos para que o controle biológico seja implementado. Mas, para outras, já existem empresas no Brasil que comercializam agentes de controle biológico, como micróbios e insetos. Na cana, por exemplo, temos o maior programa de controle biológico do mundo. Só para você ter uma ideia, hoje se plantam cerca de 8 milhões de hectares de cana no País. A principal praga dessa cultura é a broca-da-cana (Diatraea saccharalis), e ela é controlada em 3 milhões de hectares – quase a metade, portanto – de forma biológica. Na década de 1980, as perdas da cana eram de 100 milhões de dólares por ano no estado de São Paulo; com a introdução da Cotesia flavipes [gênero de vespas que atacam a broca-da-cana], essa perda caiu para 20 milhões.

O que é preciso para difundir essa tecnologia em outras culturas?
Basicamente, fornecer condições para que novos inimigos naturais sejam produzidos em laboratório e liberados no campo. Isso demanda conhecimento – é o que eu tenho feito ao longo desses anos. Mas também demanda investimento. Porque estamos falando de criações em grande escala, milhões de insetos. Na universidade você gera a tecnologia, mas essa tecnologia tem de ser assimilada pelas empresas em escala comercial. Por exemplo, aqui eu produzo Trichogramma [outra vespa inimiga natural da broca-da-cana] em pouca quantidade: 10 gramas de ovos por dia. Uma empresa vai produzir 7 quilos por dia. Então é preciso dar incentivo para que surjam mais empresas desse tipo, porque o grande problema do controle biológico é que muitos querem utilizar, mas não há disponibilidade.
 

Ainda nesta edição...

EXCLUSIVO - Alimentando ideias: José Roberto Postali Parra

Trechos em áudio da entrevista com José Roberto Postali Parra, homenageado com o 56o Prêmio Fundação Bunge, categoria Vida e Obra.

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