Prêmio 2014 - Prêmio Fundação Bunge - Projetos - Fundação Bunge
Texto

Prêmio Fundação Bunge 2014

Artes Circenses

chamada_premio2014

Um palco circular, uma lona apontando para o firmamento e uma plateia maravilhada com um espetáculo quase tão antigo quanto a própria humanidade. Não existiam circos até o século XVIII – não como os conhecemos hoje –, mas na China de 5 mil anos atrás já existiam acrobatas, equilibristas e contorcionistas, como registram pinturas achadas por arqueólogos. Não havia picadeiros, mas no Egito Antigo hieróglifos já davam conta de mulheres malabaristas. Não havia palhaços ou gargalhadas inocentes no Circus Maximus do Império Romano, mas, entre corridas de carruagem e lutas de gladiadores, já havia apresentações de engolidores de fogo. Em civilizações de diversas épocas e em diversas partes do globo, havia adestradores de animais, ilusionistas, dançarinos, cômicos. Ainda não existia o Circo, mas já existiam e sempre existirão as ARTES CIRCENSES.

Não é exagero afirmar, portanto, que, ao eleger as Artes Circenses como um dos temas contemplados pelo PRÊMIO FUNDAÇÃO BUNGE 2014, a Fundação Bunge esteja homenageando uma parte importante do espírito humano.

É também uma homenagem à invenção do circo moderno, atribuída ao cavaleiro militar inglês Philip Astley, que, em 1768, fundou o Anfiteatro Real de Londres, cujos espetáculos aliavam as proezas do próprio Astley sobre seu cavalo a números de palhaços, acrobatas, malabaristas e domadores de feras. O sucesso multiplicou uma fórmula que sobreviveria até hoje, quase 250 anos depois: exibições equestres e artistas saltimbancos. Destes, o circo herdaria a organização familiar e o nomadismo. Os ensinamentos passados de pai para filho e a disposição para viajar, para ter o mundo inteiro como sua casa e ir até o público onde o público estiver – uma das principais razões pelas quais o circo tornou-se indispensável.

Marcos Teixeira Campos, coordenador da área de Circo da Funarte (Fundação Nacional de Artes), no Rio de Janeiro, diz ter percorrido cerca de 2.700 quilômetros pelo sertão baiano em busca de circos, e atesta: “Eu chegava a uma cidade minúscula, de 8 mil habitantes. E essa cidade teria um vilarejo mais afastado. E desse vilarejo faria parte um povoado, ao qual só se poderia ir por uma trilha no mato. Na periferia desse povoado, haveria um circo”. Se é verdade que todo artista tem de ir aonde o povo está, o artista circense é o que vai mais longe.

Na história do Brasil, particularmente, essa característica do circo ganhou importância monumental e civilizatória. “O circo itinerante de lona chegava a lugares aonde só ele chegava. Era a única opção de cultura para muitos. E ainda hoje é assim”, diz Verônica Tamaoki, coordenadora do Centro de Memória do Circo, em São Paulo.

Guardiã dos acervos de dois dos maiores circos brasileiros já teve, o Nerino (1913-1964) e o Garcia (1928-2002), Verônica vê a preservação da história do circo como a preservação do patrimônio cultural e afetivo do País. E é mesmo.

Tendo aportado no Brasil com as levas de imigrantes do século XIX, os primeiros circos brasileiros (chamados de “circos de cavalinhos”, evidenciando o legado de Astley) logo seriam adaptados por uma cultura muito forte em elementos cênicos e musicais, em especial no que se referia à figura dos palhaços – presentes desde sempre em reisados, bumbas-meu-bois, cavalos marinhos e outros folguedos populares. Surgia o circo-teatro, pedra fundamental na história das artes brasileiras (na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, o circo criollo seria como “irmão gêmeo” do nosso circo-teatro). Em meio às performances de malabaristas, equilibristas e mágicos, palhaços apresentavam cançonetas no violão e números de dramaturgia para um público que os alçaria à condição de estrelas nacionais.

Foram palhaços ou se apresentaram em circo nossos primeiros cantores populares, como o carioca Dudu das Neves (1874-1919), o mineiro Benjamin de Oliveira (1870-1954) ou o baiano Manuel Pedro dos Santos (1870-1944) – conhecido como Baiano mesmo, intérprete da primeira gravação em disco da história do País. Foi no palco do circo que se formaram alguns de nossos grandes astros da comédia, como Oscarito (1906-1970), Mazzaropi (1912-1981) e Os Trapalhões, assim como atores e atrizes que mais tarde fariam sucesso em novelas de televisão – ela própria, uma “cria” do circo, que ajudou a formar os primeiros técnicos de iluminação e de som no meio que o cineasta Nelson Pereira dos Santos apelidou, com bastante pertinência, de “circo eletrônico”. E os programas de auditório, até hoje líderes absolutos da audiência dominical? Foi o Palhaço Carequinha (1915-2006) quem inventou.

Erra, no entanto, quem considera que a força do Circo ficou no passado. Os tempos decerto são outros, as dificuldades existem – principalmente para as centenas (ou milhares, o número ninguém sabe ao certo) de pequenos circos itinerantes que levam o espetáculo aos grotões do País, “à periferia da periferia”, como diz Marcos Teixeira Campos. Mas eles resistem, talvez até mais do que no passado. (A título de comparação, o coordenador da Funarte cita que o número de inscritos no Prêmio Carequinha de Estímulo ao Circo, outorgado pela fundação, em 2004 era de 172 circos, enquanto em 2011 foi de 1.091.) Isso sem falar nos grupos que têm transformado o Circo, conciliando tradição e vanguarda em espetáculos de grande sucesso. “Temos artistas muito bons, gente de ponta, como os Parlapatões, a Intrépida Trupe, o Circo Zanni”, cita Verônica Tamaoki, que constata também a força que as Artes Circenses têm adquirido fora do Circo, promovidas em escolas e cursos diversos como um vetor de promoção de saúde e de valores.

O Circo sobrevive. As Artes Circenses sobrevivem, graças a homens e mulheres que perpetuam esse espetáculo quase tão antigo quanto a própria humanidade. É a eles, a esse respeitável grupo, que a Fundação Bunge dedica a homenagem do seu maior prêmio.