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Prêmio Fundação Bunge 2014

Hiroshi Noda

Produtividade Agrícola Sustentável – Categoria Vida e Obra

“A sabedoria dos agricultores tradicionais é a fonte primordial que alimenta o conhecimento agroecológico, e este é o único caminho que nos conduzirá a uma agricultura sustentável”

Ao recordar sua trajetória e atuação destacada no campo das Ciências Agrárias – em especial no que diz respeito à conservação dos recursos naturais e à prática da agricultura sustentável na Amazônia –, o engenheiro agrônomo HIROSHI NODA parece se colocar, primeiro, no papel de aprendiz: de seus professores de Biologia no “colegial”; de seus mestres na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq); de seus chefes no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa); e até dos agricultores das comunidades ribeirinhas amazônicas, a quem Noda deu inestimáveis contribuições e aos quais ele chama de “guardiães da natureza, com quem tive muito a aprender”.

“O produtor é o protagonista”, diz Noda. “O técnico não deve impor nada, mas sim dialogar com o produtor para produzir novas bases do conhecimento.”

Nascido em 1943, na cidade de Pompéia, interior paulista, Noda não escolheu cursar Agronomia na Esalq, em Piracicaba, por acaso. Havia o interesse natural pelas Ciências Biológicas, despertado no colégio. Havia a ligação familiar com a agricultura: seus pais tinham vindo do Japão para trabalhar como colonos do café. E havia a Revolução Verde: uma explosão na produtividade agrícola mundial, nos anos 1960 e 1970, graças à disseminação de novas práticas e tecnologias, como o melhoramento genético de plantas, o uso intensivo de agroquímicos, a mecanização e a produção em larga escala. O diploma de agrônomo, obtido em 1968, significava, em termos práticos, um mercado profissional promissor. Mas as intenções de Noda eram mais do que práticas: interessava-no, principalmente, a pesquisa e a extensão, fazer avançar o conhecimento científico e levá-lo até o homem do campo.

Pela próxima década e meia, Noda concluiria mais uma graduação: Filosofia, pela Universidade Católica de Santos (“sempre considerei essa parte mais humana um importante complemento ao conhecimento técnico”). Passaria seis anos como funcionário da fábrica de fertilizantes Petroquisa, subsidiária da Petrobras, em Cubatão. Obteria mestrado e doutorado em Genética e Melhoramento de Plantas pela Esalq. E seria contratado pelo Inpa, em Manaus, onde até hoje vive, tendo se tornado referência internacional num campo que consiste em identificar, recombinar e selecionar, dentre a extraordinária variabilidade genética das espécies vegetais cultivadas pelo homem, aqueles conjuntos de genes que melhor se adaptam ao ambiente em que se quer plantar.

A agricultura na região do Trópico Úmido, da qual a Amazônia faz parte, é especialmente crítica, devido à baixa capacidade do solo de reter nutrientes. “São solos frágeis, e a manutenção do equilíbrio da floresta ocorre por meio de uma eficiente ciclagem de nutrientes envolvendo uma complexa rede de interações entre plantas, animais e microrganismos”, explica Noda. “Por isso, a transformação das florestas de terra firme em áreas agrícolas exige técnicas adequadas”. Desmatem-se grandes áreas e apliquem-se insumos químicos, simplesmente, e o resultado não apenas é incerto, como compromete o já delicado equilíbrio dos recursos naturais. A solução, segundo Noda, pode ser encontrada em práticas tradicionais dos produtores familiares, como os sistemas agroflorestais e a rotação de cultivos. Ou na cuidadosa seleção de variedades com carga genética ideal para a região.

É aí que entra o trabalho de melhoristas como Hiroshi Noda. Suas pesquisas renderam variedades de melhor adaptação ao solo amazônico, como tomates geneticamente resistentes à bactéria R. solanacearum, causadora da doença “murcha bacteriana” – bastante comum na região e bastante prejudicial –, entre outros diversos exemplos de hortaliças (pimentão, melão, feijão, etc.).

Nas três décadas de atuação em Manaus, Noda foi coordenador do Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos da Amazônia (Nerua), do Inpa, e pesquisador do Núcleo de Etnoecologia na Amazônia Brasileira (Netno), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). É professor dos programas de pós-graduação do Inpa (Agricultura no Trópico Úmido) e da Ufam (Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia), tendo orientado 15 dissertações de mestrado e 3 teses de doutorado, além de ter participado de inúmeros congressos científicos no Brasil e no exterior, publicado cerca de 50 trabalhos científicos em periódicos, 62 capítulos de livros e 10 livros. Sempre disposto a transmitir seu conhecimento. E sempre disposto a aprender o que o homem e a natureza têm para ensinar.