Prêmio 2014 - Prêmio Fundação Bunge - Projetos - Fundação Bunge
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Prêmio Fundação Bunge 2014

Hugo Possolo

Produtividade Agrícola Sustentável – Categoria Vida e Obra

“A importância do Prêmio, para mim, vai além da satisfação pessoal. Ele simboliza o caminho que o Circo está trilhando para ter seu merecido reconhecimento como Arte”

A princípio, as aulas na escola de circo tinham propósito prático: “Eu queria aprender algumas técnicas para usar no teatro”. Foram o bastante para que HUGO POSSOLO abandonasse o emprego como jornalista, o curso de História e até o medo de alturas e se entregasse à paixão que o consagraria como expoente do circo no Brasil. Palhaço, ator, cenógrafo, figurinista, autor, diretor e produtor, fundador do grupo de comédia Parlapatões, Hugo renovou a linguagem do circo sem deixar de honrar a tradição, contribuindo para unir gerações em torno da valorização da classe e das Artes Circenses no País.

Capixaba apenas de nascença (seus pais passaram um ano em Vitória, a negócios), Possolo, 52 anos, formou-se jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Atuou brevemente como repórter em revista econômica e como ilustrador e diretor de arte do jornal Foquinha, feito para crianças. Pela mesma época, cursou História na Universidade de São Paulo, mas não concluiu. O interesse pelo teatro – que praticava desde a adolescência – o levou à Escola de Circo Picadeiro, na Grande São Paulo. E a escola o levou a mudar os planos. “De repente, percebi um potencial como palhaço que ainda não tinha explorado”, conta Possolo, que recorda como primeiras referências de humor as palhaçadas de Ronald Golias e Jerry Lewis, na TV, e dos irmãos, em casa. “A família toda é muito sarrista, eu era o mais tímido.” Em meados dos anos 1980, ele se lançou na aventura do Circo.

Foi a época em que o mundo viu surgirem as primeiras escolas de circo, a partir do exemplo francês (a primeira escola do Brasil foi a Academia Piolin, em 1978; a Picadeiro foi a terceira). As escolas atraíam alunos de todos os tipos – atores, bailarinos, universitários –, disseminando artes que, até então, haviam sido mantidas dentro das tradicionais famílias circenses. A novidade não foi bem recebida por todos: alguns dos antigos torciam o nariz para os novatos, que, por sua vez, passaram a menosprezar a tradição. Possolo optou pelo meio: “Eu vou fazer o meu caminho, mas não vou negar quem está me ensinando. Valorizar a história do circo foi um dos pontos que fizeram com que eu circulasse tanto pelos artistas tradicionais quanto pelos contemporâneos”.

O caminho de Possolo o motivou a ocupar espaços além da lona, levando o circo para teatros, eventos, praças, para a rua. Em 1991, foi um dos fundadores do grupo Parlapatões, uma das maiores referências desse novo circo, com o qual venceu alguns dos mais importantes prêmios do País: Prêmio Shell, Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), Prêmio Panamco, Prêmio Estímulo (Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo). Ao mesmo tempo, por sua capacidade de liderança e articulação, contribuiu para a memória e continuidade do circo tradicional e para a aproximação da classe circense em prol de um objetivo comum. Em 2004, tornou-se o primeiro coordenador da área de Circo da Funarte (Fundação Nacional de Artes). Dois anos depois, ajudou a fundar o Circo Roda, companhia itinerante dedicada à profissionalização de novos artistas e à pesquisa de linguagens cênicas.

“A grande importância do Circo está em ser uma arte universal, que dialoga com todas as camadas sociais, todas as faixas etárias. É um saber popular, feito pelo povo e para o povo, que não pode ser tratado como mero entretenimento. Temos muito a conquistar ainda”, diz o palhaço, que já fez tanto.